Amor, dor e hipotermia
Do ardor à falência do corpo, versos sobre quem um dia ousou se despir
Amor e dor. Condição humana, rima poética, clichê literário. Dupla impetuosa cujo efeito final é a hipotermia. Há um erotismo intrínseco no ato de amar, no toque invisível entre duas peles ardentes que se deixam juntas queimar. E queimando, como se um ferro de brasa destroçasse a pele, é preciso despir-se, ficar nu, jogar gelo em cada ferida. Descobertos, entre o fogo e o gelo, esses corpos se entrelaçam, em um desejo violento de proteger a si mas consumir o outro. O gelo derrete. O lençol fica molhado e frio. O ar que entra pela janela faz a pele arrepiar. A nudez, antes ardente, dá lugar à hipotermia. Vocês tentam se aquecer, mas seus corpos colam-se em vão. Os lábios, que conduziam-se macios, tornam-se roxos, gangrenados. O coração vai falhando. O seu corpo, já cansado, não consegue suportar. Então vocês morrem: despidos, trêmulos, de frio, de amor, de dor. O último ato, o adeus terreno de quem um dia, ardendo de calor, ousou se despir.



Gostei muito. Me impactou. Me identifiquei.